O Povoado Cebola
Dizem que, antes de se tornar fértil, aquela terra era um deserto de pó e pedra, onde nem o capim se atrevia a nascer. O vento rodopiava com um assovio estranho, como se trouxesse lembranças de tempos antigos. Quem passava por lá sentia calafrios, como se fosse observado de dentro da própria terra. Foi nesse lugar que se instalou Seu Ambrósio, homem simples, de mãos calejadas e coração aberto. Não tinha família, mas carregava no peito a bondade de cuidar de todos. Sonhava em ver o povoado que não existia: queria plantar para os pobres, alimentar os viajantes, dividir o que a terra pudesse dar. Tinha fé na cebola, que ele chamava de “raiz do choro e da cura”, por acreditar que nela a vida se escondia em camadas, assim como a alma da gente. Mas sua esperança despertava rancor em um homem poderoso: o fazendeiro das terras vizinhas, senhor de gado e de jagunços. Para ele, a terra devia servir apenas ao lucro e à servidão. Não tolerava a ideia de um homem humilde ensinar o povo a colher o q...