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Fogo 🔥

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​O convite veio em labaredas lentas, fricção de olhares, madeira de lei que resiste, até que o atrito venceu a casca, O coração vazia ansiava por calor,  O sorriso mais lindo do mundo incendiou e se fez estrela em mim... e o que era faísca virou um sol que não quis se pôr. Senti o gosto de fumaça e mel na boca, um paladar de perigo que a língua não evita, enquanto o calor subia, em febre louca, desejo de saber mais de queimar mais, na coreografia de uma pele que em ti se precipitou... Minhas mãos percorreram o teu relevo, Olhei atentamente suas cicatrizes e seus traços, fui em teu corpo como quem tateia o núcleo de uma brasa viva. Havia um suor denso, um vapor de relva molhada, uma noite inteira em que fui chama e fui cativa de ti. Vigiei teu sono, sentindo o oxigênio escasso, meu peito era uma fornalha de portas abertas, fundindo no metal do teu abraço todas as minhas defesas, outrora tão alertas. Mas o amanhecer trouxe o orvalho de ferro, e tuas palavras, gotas d...

O Gato à Porta Sabia

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Eu a vi antes mesmo que ela soubesse que estava sendo vista, sentado a porta aguardando um petisco cair no chão, passando entrelaçando algumas pernas e recebendo um carinho ou outro de humanos mais gentis.  Sou velho; não no corpo, que ainda salta muros e se equilibra em beirais, mas no tempo. Carrego nos olhos o que meus ancestrais já observaram: encontros, despedidas, silêncios que dizem mais do que palavras. Fico à porta do restaurante como quem guarda histórias. E aquela noite… ah, aquela noite tinha cheiro de início. Ela chegou com o coração à frente do corpo. Dava para perceber pelo modo como hesitou meio segundo antes de atravessar a porta. Humanos acham que escondem, mas não escondem nada. O corpo deles fala alto, mais alto do que qualquer voz. E o dela chamava. Então ele entrou no campo dela. E houve aquele instante, curto, quase invisível, em que o mundo ajusta o foco. Eu já vi isso muitas vezes. Nem sempre termina bem. Mas sempre começa bonito. Sentaram-se. Conver...

O Eclipse do Sol-Posto

​Não é dor o que sinto. A dor é vermelha, é carne exposta, é bicho vivo gritando para não morrer. O que sinto agora é branco. Um branco cirúrgico, de hospital, de página em branco onde nada se escreve porque tudo já foi dito. É o nojo. O nojo é a ausência total de mistério. É quando você descobre que o monstro no armário era apenas um casaco velho e mofado, e você, tola, tremia de medo e de desejo diante do nada. ​Eu o amei como quem ama o nascer do sol. Que frase bonita e mentirosa. O sol nasce todo dia, independentemente de mim. Amar o sol é fácil; é passivo. Eu me dei o luxo da adoração. Eu me ajoelhei diante do altar dele, não porque ele fosse um deus, mas porque eu precisava de um altar. Eu estava cheia de uma luz que me queimava por dentro, e precisava projetá-la em algum lugar. Escolhi ele. Um erro de cálculo. Uma miopia da alma. ​O que eu queria? Eu queria a transcendência. Queria tocar o céu agarrada à mão dele. Que pretensão a minha. Ele não tem mãos para o céu; ele tem mão...

O Mármore e o Azul

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​O ônibus era o meu casulo de ferro, mas eu não era borboleta; eu era pedra fria. Sentia o corpo ganhar a densidade do mármore, uma frieza que vinha de dentro, como se o sangue tivesse decidido não mais circular, mas repousar. A pressão caía como uma cortina de veludo pesado sobre a minha consciência e sobre todo o ar em minha volta. Eu me tornava uma estátua viva, rígida na poltrona, enquanto o mundo lá fora continuava a sua pressa orgânica. ​Minha alma, contudo, não tinha peso. Ela tinha fome de céu. ​Eu olhava para o horizonte através da fresta da janela e nesse instante, o azul era o meu único oxigênio. "Eu não estou aqui", eu sussurrava para as minhas células que se apagavam. Eu me derramava para fora, esticando o meu ser até que ele tocasse as nuvens, até que eu me tornasse a própria extensão do vento. O céu era a minha única pele verdadeira; o resto era apenas esse invólucro de carne que insistia em desfalecer sentado na poltrona gasta, lutando para não ser percebida. ...

A Caixa

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​Era uma caixa. O mundo, às vezes, se resumia a uma caixa de metal pintada, roncando pelas estradas entre o cansaço e a esperança. Durante anos, eu não soube que o que eu sentia tinha nome. O nome é uma coisa dura, uma etiqueta colada no susto. Antes do nome, havia apenas o vazio que apertava. As paredes das salas, os tetos baixos, os corpos amontoados; tudo se tornava uma massa de carne e hálito que me roubava o oxigênio. A dor de cabeça não era carne; era o espírito tentando sair pelos poros. E as convulsões? Eram o meu corpo gritando o que a boca não ousava: "Eu não caibo aqui". ​A faculdade me deu o diagnóstico, mas o ônibus me dava a prova diária. Todo início de semana, o ritual do sufoco. Jovens sonhadores, diziam. Eu via apenas nucas, mochilas, o cheiro de suor e futuro misturados no abafado. Mas eu havia domesticado o monstro. Havia aquele lugar, logo na frente, o meu altar de vidro. Ali, a janela não era apenas um buraco na lataria; era a minha saída de emergência ...

​O Tecido das Estrelas e o Sagrado

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Diante do firmamento, a nossa arrogância costuma tropeçar. Olhar para o alto é aceitar o diagnóstico da nossa irrelevância: somos apenas pó em um movimento orgânico, confuso e terrivelmente belo. Como dizia Carl Sagan, somos feitos de poeira estelar, mas raramente nos comportamos com a nobreza que essa origem exige. Em vez disso, arrastamo-nos sob a imensidão, pequenos pontos de consciência em um "pálido ponto azul", tentando dar nome ao que é inominável. O universo, em seu esplendor silencioso, ignora nossas preces e nossas guerras. Ele existe. Ele aceita o balé violento das galáxias e a morte súbita das estrelas com uma sabedoria que nos falta. Enquanto isso, aqui embaixo, no calor do Cerrado, o horizonte relampeia ao longe, anunciando a chuva que vem limpar a poeira da terra, enquanto o homem tenta limpar a poeira da própria alma. Há uma crueldade inerente nessa existência. Nietzsche nos alertou que, ao olharmos longamente para o abismo, o abismo começa a olhar...

O Poço e os Ossos

 O homem entrou no cerrado como quem entra em um pensamento que ainda não terminou de nascer. O sol era alto e cruel, mas havia uma estranha paz na vastidão. O cerrado respirava lentamente: árvores tortas, capim alto sussurrando com o vento, o cheiro seco da terra quente. Ele caminhava sem destino muito claro, movido por aquela curiosidade antiga que às vezes empurra o homem para lugares onde ele ainda não sabe que precisa chegar. Horas passaram. A água acabou primeiro. Depois veio a sede. Depois veio aquele silêncio profundo que só existe em terras muito abertas, onde até o horizonte parece observar. Foi quando encontrou o poço. Não era grande. Era antigo. As pedras ao redor estavam gastas, e havia um abandono que parecia mais velho que o próprio tempo. O homem se aproximou devagar, como se o lugar estivesse esperando por ele há muito tempo. Olhou para dentro. Não havia água. Apenas escuridão. E algo mais. No fundo do poço, meio enterrados no pó, havia ossos. Estranhos, e...