O Povoado Cebola

Dizem que, antes de se tornar fértil, aquela terra era um deserto de pó e pedra, onde nem o capim se atrevia a nascer. O vento rodopiava com um assovio estranho, como se trouxesse lembranças de tempos antigos. Quem passava por lá sentia calafrios, como se fosse observado de dentro da própria terra.

Foi nesse lugar que se instalou Seu Ambrósio, homem simples, de mãos calejadas e coração aberto. Não tinha família, mas carregava no peito a bondade de cuidar de todos. Sonhava em ver o povoado que não existia: queria plantar para os pobres, alimentar os viajantes, dividir o que a terra pudesse dar. Tinha fé na cebola, que ele chamava de “raiz do choro e da cura”, por acreditar que nela a vida se escondia em camadas, assim como a alma da gente.

Mas sua esperança despertava rancor em um homem poderoso: o fazendeiro das terras vizinhas, senhor de gado e de jagunços. Para ele, a terra devia servir apenas ao lucro e à servidão. Não tolerava a ideia de um homem humilde ensinar o povo a colher o que comer sem precisar dobrar a espinha diante dele. Aos olhos do fazendeiro, Ambrósio não passava de um obstáculo e obstáculos, no sertão, eram tratados com silêncio e sangue.

Numa noite sem lua, Ambrósio desapareceu. Dias depois, seu corpo foi encontrado caído no chão seco. Não havia sinal de luta, mas seus olhos, vidrados e abertos, refletiam algo que ninguém ousou nomear. Alguns afirmaram ter visto um clarão de fogo cruzar o céu naquela madrugada; outros falaram de um assovio comprido vindo do mato. No entanto, todos sabiam: a injustiça tinha mãos humanas.

E foi então que o inexplicável se deu. Do solo em que seu corpo tombara, começou a brotar uma fileira de cebolas verdes e cheirosas. O chão, antes árido, se transformou em terra preta, úmida, propícia. As sementes lançadas ali vingavam com força incomum. Era como se algo — ou alguém — tivesse aceitado o sacrifício de Ambrósio e devolvido em fertilidade o que lhe fora tirado em vida.

O povo, assustado, passou a plantar em torno do lugar. A cada safra de cebolas, lembravam-se dele e repartiam a colheita. Ao redor da horta nasceram casas, depois ruas, e logo surgiu o Povoado das Cebolas.

As noites, porém, nunca ficaram tranquilas. Dizia-se que figuras guardiãs rondavam os arredores: um clarão que se movia como brasa errante no horizonte, um assovio distante que pedia silêncio, uma sombra verde que se confundia com o mato. Não eram aparições de mal nem de bem, mas sentinelas antigas, observando. Uns diziam que protegiam a memória de Ambrósio; outros acreditavam que guardavam a terra contra novas injustiças.

E assim o povoado cresceu, alimentado pelo fruto da morte e vigiado pelo mistério. Até hoje, quem descasca uma cebola daquela terra sente as lágrimas escorrer mais fundo que o comum. Uns culpam o sumo forte da planta; mas os mais velhos garantem que são lágrimas de Ambrósio, misturadas às camadas do tempo, lembrando que a fartura nasceu de uma traição e que os guardiões ainda vigiam, na penumbra, para que o sangue não seja esquecido.

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