O homem da estrada do Ribeirão de Pedra
A estrada cortava a serra como uma língua de fogo, serpenteando por entre as árvores densas que pareciam engolir a luz do sol. A vegetação era espessa e um nevoeiro fino se estendia sobre o chão, criando um ambiente de mistério e inquietação. Era por ali que Ana, uma mulher de olhar melancólico e coração em frangalhos, dirigia seu carro antigo. Ela havia decidido fazer aquela viagem sem rumo certo, tentando afastar-se da cidade, das lembranças e do vazio deixado por um relacionamento que parecia irremediavelmente quebrado. Aquelas curvas perigosas e a solidão das montanhas eram tudo o que ela precisava para pensar, sem ser interrompida por palavras amargas ou lembranças dolorosas.
A noite começava a cair quando, na curva mais fechada da estrada, ela viu uma figura à beira da pista. Era um homem alto, de aparência enigmática, vestido com uma capa escura que flutuava ao vento, como se fosse parte da neblina que envolvia a serra. Ele acenou com a mão, pedindo carona. Ana hesitou por um instante, mas uma estranha sensação a envolveu, e ela se viu parando o carro.
O homem entrou no veículo sem uma palavra, como se já soubesse que ela o deixaria subir. Seu rosto era quase invisível sob a sombra da capucha, mas seus olhos brilhavam como faróis em meio à escuridão. Ana sentiu um arrepio percorrer sua espinha ao olhar para ele, mas logo tentou se acalmar, focando na estrada à frente.
— Obrigada por me pegar — disse o homem, com uma voz grave e suave, que parecia ecoar pela alma. — Sei que o caminho até a cidade é longo, mas não se preocupe. Chegaremos lá rapidamente.
Ana deu um sorriso tímido e continuou dirigindo. No entanto, à medida que o carro subia pelas montanhas, ela sentiu uma curiosidade crescente sobre o estranho passageiro. Algo nele parecia familiar, como se ela o conhecesse de alguma outra vida, mas não conseguia entender de onde. Não havia muitos motoristas naquela estrada, e menos ainda aventureiros solitários como aquele homem. Ele parecia estar ali por uma razão, mas qual seria?
— Você está muito pensativa, moça — disse o homem, quebrando o silêncio. — Alguma dor no coração?
Ana o olhou rapidamente, surpresa. Não havia como ele saber.
— Como você… sabe? — perguntou, com uma pontada de desconfiança, mas também com um pouco de alívio.
Ele sorriu ligeiramente, seus olhos cintilando na penumbra.
— O coração de uma pessoa fala sem palavras. E você, minha amiga, carrega um peso grande, não é? Talvez seja o peso de um amor perdido, um relacionamento que já não serve mais, mas que ainda insiste em te seguir, mesmo que você o tenha deixado para trás. Não é mesmo?
Ana congelou. Como poderia ele saber disso? Ela não havia dito nada sobre sua vida amorosa, muito menos compartilhado com alguém o quanto ela estava despedaçada após o fim do namoro com Ricardo, um homem com quem ela havia acreditado compartilhar um futuro. Mas ele estava certo. Ela carregava esse peso, e ele parecia compreendê-lo de uma forma tão profunda que a fez sentir-se desconfortavelmente exposta.
— Eu… sim, mas como você…? — tentou responder, a voz trêmula.
— Não se assuste, Ana. Você deve confiar mais em si mesma. E nas respostas que já tem dentro de si — interrompeu o homem, a voz tranquila e suave, como um sussurro no vento. — O que você sente é verdade, não importa o que o mundo ou as pessoas ao seu redor digam. Você não está sozinha. Você nunca esteve.
Ana olhou para ele, agora com mais atenção. Seus olhos estavam diferentes, mais vivos, como se carregassem todo o conhecimento do mundo.
— Como você sabe meu nome? — perguntou, quase em um sussurro.
O homem sorriu novamente, um sorriso enigmático que parecia emanar um conhecimento antigo e vasto.
— Eu conheço todos os caminhos, Ana. O caminho das suas escolhas, das suas dores, das suas alegrias. Não tema a estrada que percorre, pois é através dela que você encontrará a resposta para o que procura. Às vezes, as coisas precisam se desfazer para dar espaço para algo novo, algo que você ainda não viu, mas que está prestes a acontecer. Acredite.
Ana estava em choque. Aquela conversa parecia absurda, mas as palavras do homem tocavam algo profundo em seu coração. Ele não parecia ser apenas um estranho qualquer. Havia algo quase sobrenatural nele, algo que não conseguia compreender, mas que sentia em cada palavra que ele dizia.
— Como posso seguir em frente, então? — perguntou Ana, a voz quase quebrando. — Não sei como seguir depois de tudo o que aconteceu.
O homem olhou para ela com uma expressão serena.
— A vida não segue um único caminho, Ana. Você só precisa estar disposta a virar a página. O amor verdadeiro nunca se perde, ele apenas se transforma. Você encontrará a paz quando parar de procurar onde já esteve e se permitir estar onde precisa estar.
Ana não respondeu de imediato. As palavras dele, que pareciam tão simples, estavam ressoando de maneira profunda dentro dela. Algo estava mudando. Talvez ela estivesse começando a entender o que ele queria dizer.
O carro seguiu pelas curvas da estrada, o farol cortando a neblina espessa que agora tomava conta da serra. A presença do homem parecia cada vez mais intensa, como se ele fosse uma sombra da própria montanha, feita de tempo e mistério. As palavras dele fluíam como um rio tranquilo, trazendo uma sensação de alívio e, ao mesmo tempo, de inquietação.
Mas, à medida que se aproximavam da cidade, algo estranho começou a acontecer. O homem ficou em silêncio, seus olhos fixos na estrada à frente, como se estivesse esperando algo. Ana, concentrada na condução, não percebeu o momento exato em que ele parou de falar, mas sentiu uma estranha sensação de vazio ao perceber que a conversa havia cessado.
Ela olhou para o banco do carona, mas ele estava vazio. O homem não estava mais ali. Ela pisou no freio bruscamente, olhando ao redor, confusa. O que havia acontecido? Onde ele estava?
Ela parou o carro no acostamento, seu coração batendo acelerado. Olhou pela janela, mas não havia sinal dele em lugar algum. O ar estava pesado, e a estrada, mais deserta do que nunca.
Ana ficou ali por alguns minutos, sem saber o que fazer, até que um arrepio a fez virar para o banco do carona novamente. O homem havia desaparecido, mas a sensação de que ele ainda estava com ela, de que as palavras que ele dissera haviam ficado gravadas em seu coração, era indiscutível.
Ela deu partida no carro e seguiu até a cidade, mas algo havia mudado. As palavras do homem misterioso, seus conselhos, estavam dentro dela. E ela sabia que, a partir daquele momento, ela precisaria se permitir viver de maneira diferente, buscando o que realmente lhe traria felicidade.
O mistério da serra e do homem místico que apareceu no caminho de Ana nunca seria explicado. Mas, de algum modo, ele a havia ajudado a encontrar a resposta que tanto buscava — uma resposta que estava dentro dela o tempo todo.
E a estrada, como a vida, continuava a seguir seu curso.
Comentários
Postar um comentário