O Saco de Estopa e o Pote de Ouro
Era uma tarde abafada no pequeno povoado de Pedra Branca, aninhado nas margens do Ribeirão de Pedra, um córrego sinuoso que cortava a região como uma serpente preguiçosa. O céu estava nublado, e o ar pesado, carregado de um silêncio incomum. As casas de barro alinhadas na rua principal pareciam exalar um cheiro de madeira queimada, como se algum fogo distante estivesse sempre queimando no horizonte. No entanto, o único som que quebrava a quietude era o murmúrio constante das águas correndo pelo córrego, que passava logo à frente.
Mateus, um homem simples de cerca de trinta anos, caminhava em direção à fazenda onde trabalhava como capataz. O sol já começava a se esconder, e ele precisava chegar antes que a noite o pegasse na estrada deserta. Ele estava cansado, mas sabia que o trabalho o aguardava. Porém, quando se aproximou da margem do Ribeirão de Pedra, algo chamou sua atenção.
Uma mulher estava lá, encurvada, carregando um saco pesado de estopa, que parecia estar prestes a rasgar a qualquer momento. Ela tinha a aparência de uma figura mística, com os cabelos brancos como algodão e a pele enrugada pelo tempo, mas seus olhos, aqueles olhos negros e profundos, brilhavam com uma intensidade que desafiava qualquer explicação lógica. Ela estava ofegante, como se o peso do saco fosse insuportável, e sua postura curvada denunciava o esforço.
Mateus se aproximou, curioso, mas sem pressa de interromper. Ela parecia desconexa do mundo ao seu redor, como se fosse parte daquele cenário antigo e esquecido pela modernidade. Quando ela o percebeu, seus olhos se fixaram nele, e um sorriso fraco apareceu em seus lábios.
— O senhor pode me ajudar, moço? — a voz dela era rouca e arrastada, como um eco distante. — Esse saco está pesado demais para mim.
Mateus hesitou por um momento, mas a solidão daquele lugar e o brilho misterioso dos olhos dela o fizeram sentir que não poderia simplesmente ignorá-la. Aproximou-se e, com um suspiro, pegou o saco de estopa de suas mãos, que imediatamente pareceu mais leve, como se o peso real fosse invisível e apenas o desejo de ajudar o tornasse tangível.
— Aonde você precisa levar isso? — perguntou Mateus, mais por educação do que por real interesse.
A mulher apontou para as montanhas ao longe, para o topo da Serra que se erguia como um gigante adormecido.
— Até a fazenda que fica no alto, moço. Não é muito longe. Mas este saco... tem muito peso, e eu não sou mais forte como antes. Se você me ajudar, eu poderei contar-lhe algo muito interessante. Algo que poucos sabem.
Mateus, com um sorriso irônico, pensou que não perderia nada ouvindo uma história enquanto carregava o saco. Ele já estava acostumado a ouvir lendas e mitos locais, falatórios que mais pareciam invenções de gente velha para espantar o tédio. No entanto, a mulher parecia falar com uma seriedade que lhe deu um calafrio.
— O que a senhora tem para me contar? — perguntou ele, tentando manter a conversa leve.
A mulher olhou-o com intensidade, como se estivesse lendo sua alma. Seus olhos brilharam mais uma vez, e ela começou a falar de um jeito pausado, como se as palavras estivessem presas por séculos, esperando para serem ditas.
— Há muito tempo, um homem que fugia da escravidão encontrou um pote de ouro no topo da Serra. Ele o enterrou ali, perto de uma árvore retorcida, no local onde o vento sempre sopra com força. Ninguém jamais conseguiu encontrar, pois quem tenta, sempre acaba desaparecendo, assustado pelo que encontra. Animais selvagens, lobos e jaguatiricas, eles guardam o local e ninguém, moço, ninguém deve ousar chegar até lá.
Mateus, de início, riu. Aquela história de escravo fugitivo e pote de ouro parecia mais um conto folclórico para assustar crianças. Ele olhou para a mulher com uma expressão cética.
— Uma história dessas? Não me venha com lenda, dona. Pote de ouro enterrado na Serra? Ah, me poupe. Isso é conversa para quem tem tempo ocioso.
A mulher o observou em silêncio, e a expressão em seu rosto se fez ainda mais grave. Ela parecia não se importar com a zombaria dele. Os olhos dela fixaram-se na estrada à frente, e a conversa foi se tornando mais tensa, como se o ambiente à sua volta estivesse lentamente mudando de tom.
A medida que subiam pela estrada íngreme, a atmosfera ao redor de Mateus parecia se alterar. O vento, antes suave, começou a soprar com força. Ele sentia um arrepio na pele, como se algo estivesse prestes a acontecer. A mulher não dizia mais nada, mas seu olhar parecia distante, perdido em algum ponto do passado.
De repente, ele sentiu o saco de estopa, que até então parecia razoavelmente leve, se tornar mais pesado. Um peso estranho, incomum, como se o saco estivesse se tornando mais denso a cada passo. Ele olhou para a mulher, que agora estava parada, com as mãos juntas, como se estivesse em um transe.
— O que está acontecendo? — perguntou Mateus, o medo começando a invadir sua voz.
Antes que pudesse fazer mais perguntas, a mulher desapareceu. Simplesmente desapareceu, como se tivesse sido engolida pela neblina que começava a subir pela serra. O saco, que estava em suas mãos até o momento, se soltou, caindo pesadamente no chão, como se tivesse se tornado impossível de carregar.
Mateus olhou em volta, atônito. Não havia sinal de nenhum movimento, exceto o som das águas do Ribeirão de Pedra e o vento que cortava a serra. O que acontecera? Onde estava a mulher?
Ele sentiu um pavor crescente, como se algo estivesse se aproximando, algo que ele não poderia ver, mas sentia. O silêncio foi interrompido por um som distante, um grito baixo, quase imperceptível, vindo da direção da Serra. Mas o que mais o deixou inquieto foi o som de passos, passos rápidos, como se algo — ou alguém — estivesse se aproximando, com pressa e raiva.
Subitamente, o ar se encheu de um cheiro estranho, uma mistura de terra úmida e algo mais, algo fétido. Foi quando ele viu os olhos. Olhos brilhando na escuridão, ao longe, perto das árvores. Primeiro, eram apenas pontos pequenos e distantes, mas logo começaram a se aproximar, e Mateus percebeu que eram olhos de animais. Olhos de lobos, jaguatiricas e criaturas que ele nunca vira antes. Eles estavam ao redor dele, cercando-o.
Seu coração disparou. Ele tentou correr, mas o peso do saco parecia o prender ao chão. Os animais começaram a se aproximar, rosnando baixinho, e ele sentiu que não poderia escapar. De repente, uma risada ecoou pela Serra, uma risada fria, cheia de poder e malícia. Ele soubera que a mulher não era apenas uma velha quebradeira de coco babaçu.
Era a guardiã do ouro, e ele havia ousado buscar aquilo que não deveria ser encontrado. O sacrifício que ela controlava já havia começado.
Mateus finalmente entendeu a verdadeira história da mulher do Ribeirão de Pedra. E agora, ele era a presa.
O saco de estopa ficou ali, jogado no chão, como um sinal de que o ouro, com sua ganância, já havia consumido mais uma alma.
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