A Caixa
Era uma caixa. O mundo, às vezes, se resumia a uma caixa de metal pintada, roncando pelas estradas entre o cansaço e a esperança. Durante anos, eu não soube que o que eu sentia tinha nome. O nome é uma coisa dura, uma etiqueta colada no susto. Antes do nome, havia apenas o vazio que apertava. As paredes das salas, os tetos baixos, os corpos amontoados; tudo se tornava uma massa de carne e hálito que me roubava o oxigênio. A dor de cabeça não era carne; era o espírito tentando sair pelos poros. E as convulsões? Eram o meu corpo gritando o que a boca não ousava: "Eu não caibo aqui".
A faculdade me deu o diagnóstico, mas o ônibus me dava a prova diária. Todo início de semana, o ritual do sufoco. Jovens sonhadores, diziam. Eu via apenas nucas, mochilas, o cheiro de suor e futuro misturados no abafado. Mas eu havia domesticado o monstro. Havia aquele lugar, logo na frente, o meu altar de vidro. Ali, a janela não era apenas um buraco na lataria; era a minha saída de emergência para o infinito. Com o rosto colado no vidro e os fones de ouvido, onde a música criava uma redoma de som; eu não era mais uma passageira. Eu era o próprio vento. Olhar o céu estrelado do Tocantins era como beber luz para não morrer de sede.
Então, veio ele. O novo motorista.
Ele não era um homem, era um "não". Um muro de autoridade que barrou meu acesso ao meu pequeno pedaço de liberdade. Obedeci. A obediência é uma forma silenciosa de morrer. Sentei onde o destino, e o motorista, permitiram. E o mundo fechou.
O ar, de repente, tornou-se sólido. Eu tentava puxá-lo, mas ele vinha em pedaços, áspero, arranhando a garganta que se fechava como um punho. A náusea não vinha do estômago, vinha da existência. Era o "it" do pânico. O suor frio era a minha pele tentando se descolar de mim. Fechei os olhos. Se eu não visse as paredes, elas não existiriam? Mentira. O escuro de dentro era pior que o de fora.
Fingir dormir era a minha última oração. Eu imaginava o descampado, o horizonte largo de Babaçulândia, o vento que não pede licença para passar. Mas bastava um relance, um abrir de olhos, e lá estava o motorista: o guardião do meu inferno. Ele se tornou o símbolo do meu limite. Agora, o ônibus não transporta mais sonhos; transporta um corpo que esfria em ânsia enquanto o breu consome a vista.
Eu sou uma mulher que olha para o céu e vê grades. E o vento, que antes me tocava como uma mão amiga, agora é apenas uma lembrança do lado de fora de uma janela que não me pertence mais.
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