O Poço e os Ossos

 O homem entrou no cerrado como quem entra em um pensamento que ainda não terminou de nascer. O sol era alto e cruel, mas havia uma estranha paz na vastidão. O cerrado respirava lentamente: árvores tortas, capim alto sussurrando com o vento, o cheiro seco da terra quente. Ele caminhava sem destino muito claro, movido por aquela curiosidade antiga que às vezes empurra o homem para lugares onde ele ainda não sabe que precisa chegar.

Horas passaram.

A água acabou primeiro. Depois veio a sede. Depois veio aquele silêncio profundo que só existe em terras muito abertas, onde até o horizonte parece observar.

Foi quando encontrou o poço.

Não era grande. Era antigo. As pedras ao redor estavam gastas, e havia um abandono que parecia mais velho que o próprio tempo. O homem se aproximou devagar, como se o lugar estivesse esperando por ele há muito tempo.

Olhou para dentro.

Não havia água.

Apenas escuridão.

E algo mais.

No fundo do poço, meio enterrados no pó, havia ossos. Estranhos, espalhados, brancos como luar antigo. O homem era curioso, perigosamente curioso, tinha essa qualidade sempre ao lhe guiar mais que qualquer prudência.

Ele desceu.

Pedra por pedra, com cuidado. No fundo do poço o ar era frio. Pegou um osso. Depois outro. Depois outro.

Subiu novamente.

No chão do cerrado, sob o céu que começava a escurecer, ele espalhou os ossos sobre a terra seca. Algo dentro dele queria compreender. Como uma criança que desmonta um relógio apenas para saber onde mora o tempo.

Então começou a montar.

Primeiro a coluna.

Depois as costelas.

Os braços.

As pernas.

As mãos.

E, por fim, o crânio.

Quando terminou, afastou-se um pouco.

Era humano.

O homem sentiu um arrepio pequeno, desses que passam rápido mas deixam uma pergunta. Não havia ali ameaça, apenas um mistério silencioso.

Ele olhou novamente para o poço. Depois para o esqueleto.

E decidiu seguir caminho.

A noite caiu rápida como costuma cair no cerrado. Logo o mundo era apenas sombra, estrelas e o murmúrio dos insetos. O homem caminhou até que o cansaço venceu.

Deitou-se sobre o capim.

E dormiu.

Enquanto isso, algo antigo se movia na terra.

Talvez fosse magia do cerrado. Talvez fosse apenas o que acontece quando alguém toca, sem saber, em um segredo muito antigo do mundo.

Os ossos se moveram.

Primeiro um dedo.

Depois a mão.

Depois o crânio levantou-se lentamente, como se despertasse de um sonho que durara séculos.

O esqueleto se ergueu.

E começou a caminhar.

Os passos eram silenciosos, como folhas secas tocando a terra. Seguiu o homem pela noite, guiado por algo que não precisava de olhos.

Quando o encontrou, ele dormia profundamente.

O esqueleto ajoelhou-se ao seu lado.

Com dedos de osso tocou o peito do homem. Não houve sangue. Não houve dor. Apenas um gesto antigo, como um ritual esquecido pela memória humana.

O peito abriu-se como uma porta que reconhece a chave.

O esqueleto retirou o coração.

Ele ainda batia.

Tum.

Tum.

Tum.

O som ecoou na noite aberta do cerrado.

Então os ossos começaram a cantar.

Não era uma língua humana. Era um canto antigo, feito de vento, de pedra, de raízes que atravessam séculos de terra. Um canto que talvez as primeiras árvores tenham ouvido quando o mundo ainda aprendia a respirar.

E o coração respondeu.

O esqueleto começou a batê-lo como um tambor.

Tum.

Tum.

Tum.

A cada batida, algo acontecia.

Na primeira canção, uma pele fina surgiu sobre os ossos das mãos.

Na segunda, os dedos se tornaram suaves e vivos.

Na terceira, músculos nasceram nos braços.

Na quarta, cabelos longos e escuros cresceram como sombra líquida sobre o crânio.

Na quinta, olhos surgiram, profundos como poços que nunca secam.

Na sexta, lábios.

Na sétima, respiração.

E o coração continuava batendo como tambor sagrado no meio da noite cheia de vagalumes e uivos dos guaras.

A cada canto o corpo se tornava mais inteiro, mais humano, mais vivo.

Até que, quando o último verso da última canção terminou, já não havia ossos.

Havia uma mulher.

Jovem.

Bela.

Silenciosa como o próprio cerrado.

Ela segurava o coração do homem nas mãos.

Olhou para ele com uma ternura antiga, como quem finalmente encontra algo que sempre procurou.

Então abriu novamente o peito do homem e devolveu o coração ao seu lugar.

Tum.

Tum.

Tum.

O peito fechou-se.

Ela se deitou ao lado dele.

E esperou.

Quando o homem acordou, o primeiro som que ouviu foi o vento passando pelo capim.

O segundo foi a respiração dela.

Ele virou o rosto.

E a viu.

Não perguntou nada.

Algumas coisas no mundo não pedem explicação, apenas reconhecimento.

Ele a amou no mesmo instante em que seus olhos tocaram os dela, como se aquele amor estivesse apenas esperando o momento de acontecer.

Ela sorriu, doce e calma.

E os dois voltaram a dormir.

Pela manhã o cerrado parecia o mesmo.

Mas o homem já não era o mesmo homem.

Ele encontrou, naquele poço seco e esquecido, algo que não estava procurando: um amor enterrado dentro do mistério da terra, algo de vida, morte e Vida.

E ali ficou.

Perdido.

Não perdido como quem se perdeu no caminho.

Mas perdido como quem finalmente encontrou um lugar de onde nunca mais desejou voltar.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A Caixa

Babaçulandia ❤️