O Eclipse do Sol-Posto
Não é dor o que sinto. A dor é vermelha, é carne exposta, é bicho vivo gritando para não morrer. O que sinto agora é branco. Um branco cirúrgico, de hospital, de página em branco onde nada se escreve porque tudo já foi dito. É o nojo. O nojo é a ausência total de mistério. É quando você descobre que o monstro no armário era apenas um casaco velho e mofado, e você, tola, tremia de medo e de desejo diante do nada. Eu o amei como quem ama o nascer do sol. Que frase bonita e mentirosa. O sol nasce todo dia, independentemente de mim. Amar o sol é fácil; é passivo. Eu me dei o luxo da adoração. Eu me ajoelhei diante do altar dele, não porque ele fosse um deus, mas porque eu precisava de um altar. Eu estava cheia de uma luz que me queimava por dentro, e precisava projetá-la em algum lugar. Escolhi ele. Um erro de cálculo. Uma miopia da alma. O que eu queria? Eu queria a transcendência. Queria tocar o céu agarrada à mão dele. Que pretensão a minha. Ele não tem mãos para o céu; ele tem mão...