O Eclipse do Sol-Posto
Não é dor o que sinto. A dor é vermelha, é carne exposta, é bicho vivo gritando para não morrer. O que sinto agora é branco. Um branco cirúrgico, de hospital, de página em branco onde nada se escreve porque tudo já foi dito. É o nojo. O nojo é a ausência total de mistério. É quando você descobre que o monstro no armário era apenas um casaco velho e mofado, e você, tola, tremia de medo e de desejo diante do nada.
Eu o amei como quem ama o nascer do sol. Que frase bonita e mentirosa. O sol nasce todo dia, independentemente de mim. Amar o sol é fácil; é passivo. Eu me dei o luxo da adoração. Eu me ajoelhei diante do altar dele, não porque ele fosse um deus, mas porque eu precisava de um altar. Eu estava cheia de uma luz que me queimava por dentro, e precisava projetá-la em algum lugar. Escolhi ele. Um erro de cálculo. Uma miopia da alma.
O que eu queria? Eu queria a transcendência. Queria tocar o céu agarrada à mão dele. Que pretensão a minha. Ele não tem mãos para o céu; ele tem mãos para o chão, para o rasteiro, para a carne fácil e sem nome. A promiscuidade dele não é pecado, é mediocridade. É a incapacidade de sustentar o olhar em uma única coisa profunda, porque o profundo exige tempo, e ele só tem instantes. Ele é um colecionador de cascas, e eu me ofereci como essência pura e inteira, totalmente entregue. Ele não sabia o que fazer com tanta substância. Ele se assustou e eu, na minha burrice amorosa, confundi o susto dele com mistério.
O nojo que sinto hoje é a minha salvação. É o corpo expulsando o veneno. Ver a mediocridade dele, o ego que o cega para qualquer conhecimento verdadeiro, é ver o deserto. E no deserto não nasce nada, nem amor, nem ódio. Apenas o vento seco da constatação. Ele é inútil. Não para o mundo, talvez ele sirva para muitas coisas pequenas, mas é inútil para o grande arco da existência que eu tentava traçar.
A ironia; ah, a ironia tem dentes afiados e imundos, ironia agora é perceber que a desimportância que sinto agora, esse gelo que me protege, é o exato espelho do que ele sentia por mim. Enquanto eu olhava para ele e via o sol, ele olhava para mim e via... nada. Uma paisagem, ou pior, uma carne quente... Uma facilidade. Uma mulher disposta a se anular para caber na moldura estreita do ego dele.
Agora eu sei. Eu me sinto forte, mas é uma força fria. Uma força de estátua de mármore. Eu aprendi a desprezar. E o desprezo é um poder terrível, porque ele nega a existência do outro. Eu não o odeio; odiar seria mantê-lo vivo dentro de mim. Eu apenas o removi da minha cosmologia. Ele não é mais o sol. Ele não é sequer uma estrela apagada. Ele é o vazio onde eu costumava colocar minhas orações.
Estou mais focada, dizem. Sim, o foco é a única coisa que resta quando você para de olhar para o horizonte esperando um milagre. O foco é olhar para as próprias mãos e ver que elas são capazes de construir, sem precisar se segurar em ninguém para não cair. É uma liberdade solitária, essa que conquistei. Mas é a única liberdade real. Prefiro essa solidez de pedra ao voo cego que me prometia aquele ego disfarçado de amor.
O sol nasce lá fora. Eu o vejo. Ele é apenas uma estrela a milhões de quilômetros de distância. Ele não se importa comigo. E agora, finalmente, eu também não me importo com ele.
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