O Mármore e o Azul


​O ônibus era o meu casulo de ferro, mas eu não era borboleta; eu era pedra fria. Sentia o corpo ganhar a densidade do mármore, uma frieza que vinha de dentro, como se o sangue tivesse decidido não mais circular, mas repousar. A pressão caía como uma cortina de veludo pesado sobre a minha consciência e sobre todo o ar em minha volta. Eu me tornava uma estátua viva, rígida na poltrona, enquanto o mundo lá fora continuava a sua pressa orgânica.
​Minha alma, contudo, não tinha peso. Ela tinha fome de céu.
​Eu olhava para o horizonte através da fresta da janela e nesse instante, o azul era o meu único oxigênio. "Eu não estou aqui", eu sussurrava para as minhas células que se apagavam. Eu me derramava para fora, esticando o meu ser até que ele tocasse as nuvens, até que eu me tornasse a própria extensão do vento. O céu era a minha única pele verdadeira; o resto era apenas esse invólucro de carne que insistia em desfalecer sentado na poltrona gasta, lutando para não ser percebida.
​O desmaio foi um eclipse particular, silencioso e angustiante, como nossa breve passagem. Um breve instante em que o sol se escondeu atrás da minha própria fragilidade e das nuvens de chuva.
​Quando a luz retornou, líquida e embaçada, o semáforo nos deteve diante do inevitável: o letreiro da funerária. Ali, o nome da morte brilhava com uma clareza obscena sob meus olhos castanhos embaçados de vertigem. E eu, com as mãos de gelo e o coração em suspenso, sorri. Foi um sorriso de cumplicidade metafísica. Eu olhava para o mármore que eu quase era e, logo acima, para o incêndio do crepúsculo que eu desejava ser.
​O pôr do sol era uma ferida aberta em ouro e púrpura rosé, uma agonia tão bela que justificava todo o meu mal-estar. O céu estava morrendo em cores, e eu morria com ele, apenas para descobrir que o infinito não cabe em pulmões humanos, e em instantes você pode partir em gelo sentada em uma poltrona de ônibus cheios de outros céus. 
​Eu estava sem ar, mas o horizonte era vasto o suficiente para respirar por mim, e buscar beleza num instante de quase morte.
​Ali, suspensa entre o letreiro fúnebre e o esplendor celeste, entendi que a vida é esse equilíbrio impossível: um pé no mármore frio da realidade e o olhar perdido na imensidão que não tem fim. Quando saltei do ônibus, não pisei no chão; pisei na luz. Eu era, enfim, uma estátua que tinha aprendido a voar lutando contra a vertigem.

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