O Tecido das Estrelas e o Sagrado
Diante do firmamento, a nossa arrogância costuma tropeçar. Olhar para o alto é aceitar o diagnóstico da nossa irrelevância: somos apenas pó em um movimento orgânico, confuso e terrivelmente belo. Como dizia Carl Sagan, somos feitos de poeira estelar, mas raramente nos comportamos com a nobreza que essa origem exige. Em vez disso, arrastamo-nos sob a imensidão, pequenos pontos de consciência em um "pálido ponto azul", tentando dar nome ao que é inominável.
O universo, em seu esplendor silencioso, ignora nossas preces e nossas guerras. Ele existe. Ele aceita o balé violento das galáxias e a morte súbita das estrelas com uma sabedoria que nos falta. Enquanto isso, aqui embaixo, no calor do Cerrado, o horizonte relampeia ao longe, anunciando a chuva que vem limpar a poeira da terra, enquanto o homem tenta limpar a poeira da própria alma.
Há uma crueldade inerente nessa existência. Nietzsche nos alertou que, ao olharmos longamente para o abismo, o abismo começa a olhar dentro de nós. E o que vemos lá? Vemos estudantes exaustos em ônibus universitários, dormindo o sono dos que buscam um futuro que talvez se desfaça em cinzas; vemos o brilho dos copos nos bares, onde a solidão é diluída em álcool na tentativa vã de preencher um vazio que tem o tamanho do cosmos.
O Criador, esse amante das complexidades, parece ter nos dado a consciência não como um prêmio, mas como uma punição divina. É o peso de saber-se finito. É a dor de enxergar a luz que, embora gere a vida, cega os olhos desatentos que não aprenderam a respeitar a escuridão. Somos seres que correm atrás do que o fogo consome, desperdiçando o fôlego em vaidades, enquanto o segredo da eternidade é sussurrado em nossos ouvidos surdos.
Mas, mesmo nessa mediocridade que nos define, reside o nosso único privilégio: a capacidade de contemplar. Somos o universo tentando entender a si mesmo. Embora sejamos "nada", somos o instante em que a criação se reconhece. O Criador nos escondeu no firmamento como segredos guardados, e ainda assim, permitiu que amássemos.
Pode ser que sejamos apenas um erro biológico ou um capricho atômico, mas quando paramos para ver o sol se pôr em um espetáculo gratuito e silencioso, algo em nós desperta. Aquela parte divina, que muitos mataram para sobreviver ao mundo carniceiro, ainda anseia pelo verdadeiro despertar.
Somos pó, sim. Mas somos um pó que sente, que teme asteroides e desconhecidos, e que, contra toda a lógica da nossa pequenez, ainda ousa olhar para o céu e chamar a imensidão de casa. O Criador ama os seus segredos, e o maior deles talvez seja este: como algo tão ínfimo pode carregar dentro de si o peso e a beleza de todo o infinito?
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