Fogo 🔥
O convite veio em labaredas lentas,
fricção de olhares, madeira de lei que resiste,
até que o atrito venceu a casca,
O coração vazia ansiava por calor,
O sorriso mais lindo do mundo incendiou e se fez estrela em mim...
e o que era faísca virou um sol que não quis se pôr.
Senti o gosto de fumaça e mel na boca,
um paladar de perigo que a língua não evita,
enquanto o calor subia, em febre louca, desejo de saber mais de queimar mais,
na coreografia de uma pele que em ti se precipitou...
Minhas mãos percorreram o teu relevo,
Olhei atentamente suas cicatrizes e seus traços, fui em teu corpo como quem tateia o núcleo de uma brasa viva.
Havia um suor denso, um vapor de relva molhada,
uma noite inteira em que fui chama e fui cativa de ti.
Vigiei teu sono, sentindo o oxigênio escasso,
meu peito era uma fornalha de portas abertas,
fundindo no metal do teu abraço
todas as minhas defesas, outrora tão alertas.
Mas o amanhecer trouxe o orvalho de ferro,
e tuas palavras, gotas de nitrogênio líquido,
caíram sobre o meu incêndio em um erro
de cálculo, um sopro gélido, um som nítido.
Não houve vapor, nem fumaça, nem chiado,
apenas o silêncio do que congela em pleno voo.
O banquete de fogo foi por ti confiscado,
e o que era lava, em pedra fria se tornou.
Hoje, meu coração é uma brasa cinzenta,
uma relíquia de carvão que o frio agora isola.
Onde houve febre, a geada se assenta,
e a memória do calor é o que mais me desola.
Tenho o paladar do zinco, o toque do sol me dá medo agora,
é um medo de qualquer centelha vã:
pois quem ardeu um século em uma noite breve,
não suporta o brilho de uma manhã que engana o corpo inocente que carece do fogo que me abandonou.
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