O Gato à Porta Sabia

Eu a vi antes mesmo que ela soubesse que estava sendo vista, sentado a porta aguardando um petisco cair no chão, passando entrelaçando algumas pernas e recebendo um carinho ou outro de humanos mais gentis. 

Sou velho; não no corpo, que ainda salta muros e se equilibra em beirais, mas no tempo. Carrego nos olhos o que meus ancestrais já observaram: encontros, despedidas, silêncios que dizem mais do que palavras. Fico à porta do restaurante como quem guarda histórias. E aquela noite… ah, aquela noite tinha cheiro de início.

Ela chegou com o coração à frente do corpo.

Dava para perceber pelo modo como hesitou meio segundo antes de atravessar a porta. Humanos acham que escondem, mas não escondem nada. O corpo deles fala alto, mais alto do que qualquer voz. E o dela chamava.

Então ele entrou no campo dela.

E houve aquele instante, curto, quase invisível, em que o mundo ajusta o foco. Eu já vi isso muitas vezes. Nem sempre termina bem. Mas sempre começa bonito.

Sentaram-se.

Conversaram como quem pisa em água morna: primeiro com cuidado, depois com gosto. Aos poucos, os ombros dela desceram, o riso veio mais solto, e algo nela, algo antigo, endurecido, começou a ceder.

Ele tinha um jeito tranquilo. Não caçava, não forçava. Apenas estava. E isso, para criaturas como ela, acostumadas a se defender, é quase irresistível.

Eu me enrolei perto da porta, fingindo desinteresse. Mas observava.

Quando saíram, havia entre eles uma espécie de fio invisível. Ela andava um pouco inclinada na direção dele, como se já estivesse sendo puxada. E ele… ele permitia.

Depois, desapareceram na noite.

Eu não os vi mais, não com os olhos.

Mas conheço o que acontece nesses desaparecimentos.

Há corpos que se reconhecem como abrigo. Há peles que falam línguas antigas. E ela, faminta de sentir, não economizou. Entregou-se como quem finalmente encontra água depois de longa sede.

Consigo imaginá-la nos braços dele, não porque vi, mas porque sei. Sei pelo modo como ela voltou.

Sim, ela voltou.

No dia seguinte, passou pela porta outra vez. Sozinha.

E havia nela o cheiro da ausência recente, um perfume agridoce que só aparece quando algo foi intenso demais para durar. Os olhos procuravam sem admitir que procuravam. O corpo ainda carregava memória: um leve atraso nos movimentos, como se parte dela tivesse ficado em outro lugar.

Ela esperava.

Ah, humanos… sempre esperando que o calor da noite sobreviva à luz do dia.

Mas o dia é outra criatura. Mais seco. Mais exato.

Ele não veio.

E o silêncio dele… eu reconheci de longe. Silêncios também têm som. O dela era um som quebradiço, como vidro fino trincando por dentro.

Ela passou por mim sem me ver.

Mas eu a vi inteira.

Vi a falta dele nos dedos inquietos, vi o chamado do corpo dela ecoando sem resposta, vi a saudade não só do homem, mas da mulher que ela tinha sido com ele.

Isso é o que mais dói.

Não é o outro que parte.

É o que em nós acorda… e depois não encontra onde repousar.

Sentei-me à porta, como sempre faço, e pisquei lentamente para o vazio que ela deixou ao passar.

Há encontros que não são feitos para durar.

São feitos para abrir fendas.

E ela agora carregava uma.

Mas também carregava algo raro: a prova de que ainda podia sentir.

E isso, embora doa, embora doa como garras, é o que mantém os vivos… vivos.


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